A ideia peregrina "voto em branco" insurge-se como apelativa, se os políticos não sabem fazer o seu trabalho, porque não simplesmente removê-los das suas funções? As criticas a esta percepção são imperiosas, o "voto em branco" não vai resolver o problema: aparecerão "forças de bloqueio" que apelarão ao voto, diga-se, em lugares vazios; os partidos mais pequenos não vão capitalizar os votos dos descontentes; é incompatível com as "listas abertas"; perverte as relações de forças quando precisamos de tomadas de decisão maioritárias. Todas estas criticas apontam a inutilidade da medida.
Se vermos o "voto em branco" como um instrumento de mudança política, porém, os arautos do "voto em branco" poderiam contra-argumentar que o instrumento funciona de outra forma: com o receio de perder os seus lugares, os políticos iriam pôr-se a mexer. Uma forma de contrapor isto já foi aviltado: mas isso já não acontece com a renovação dos cargos? Se houvesse "voto em branco" não ocorreria renovação; simplesmente, substituição pelo vazio.
Podemos ir pelo caminho da bondade ou utilidade da ideia, todavia reflicto se não devemos criticar o "voto em branco" como princípio? Afinal, vivemos num sistema representativo. Podemos alegar que o vazio é melhor que um incompetente. É discutível, mas pode ser encarado como válido. A questão não é esta porém: como podemos ser representados por nada? Imaginemos, por mera hipótese já refutada, que o "voto em branco" teria valor instrumental. Não seria errado na mesma adoptar a ideia? Temos que ter noção dos mundos possíveis, é verdade que não vivemos no mundo ideal, encontrar um mecanismo que melhore este mundo seria óptimo, porém este tem ou teve consequências perversas: devemos adoptar o mesmo?
Saindo do exemplo do "voto em branco". Podemos argumentar que a Segunda Guerra Mundial, apesar de todas as suas atrocidades, trouxe um enorme progresso tecnológico e civilizacional - se consideramos a UE como uma impossibilidade antes da guerra, por exemplo. Mesmo assim, seriamos capazes de aprovar a guerra? Parece-me inverosímil. Mesmo que se prove que a premissa é segura - não é.
Regressando ao "voto em branco". O seu princípio instrumental revelou-se inútil, porém mesmo se fosse útil, é legítimo sermos representados por nada? Não faz muito sentido. Pior: exclui outras possibilidades bem mais produtivas, embora complexas. Soluções fáceis acarretam o problema da simplificação excessiva, o que é quase um inibidor incontornável do pensar. Depois, as "soluções" não podem ser só úteis, precisam de ser igualmente adequadas aos nossos valores e princípios basilares. Parece-me perigoso pensar de outra forma.