Dizemos que Hobbes apregoa o absolutismo. Postula um mundo onde há um soberano que põem em ordem os seres inferiores, prevenindo a "guerra de todos contra todos", com essa infalível força que é a autoridade suprema. A ideia que fica é que as coisas são mesmo assim; o timoneiro é aquele que impede o afundamento do barco, um pouco como um "guardião" esclarecido que afasta a ignorância dos supremos centros de decisão.
A filosofia política não pode admitir o agnosticismo, é manifestamente impossível ignorar que existem desigualdades sociais e económicas, nem que seja pelo facto elementar de nem todos nós sermos donos de um Bugatti. Podemos repetir a prelenga "mas é mesmo assim", porém isto também é declinar toda uma evolução histórica que ocorreu na política. Afinal, nos moldes que Hobbes concebeu o mundo, não estaríamos todos em guerra?
A filósofo político não podendo ser agnóstico, tenta desenvolver uma teoria normativa: as coisas devem ser assim. Quero só sublinhar aqui um pormenor, a figura do soberano que Hobbes defendeu não é um fim em si mesmo. Hobbes não pretendia que a vida do homem permanecesse "solitária, pobre, sórdida, brutal e curta", assim o soberano surge como instrumento para que tal não aconteça. Ele é claro nisto, sem o estado não haveria cultura, navegação, comércio e artes. Foi esta mesma cultura, comércio e arte que possibilitou uma evolução contíunua e abriu portas posteriormente a outras teorias normativas e a uma noção de liberdade palpável.
A tutela do soberano não é norma para Hobbes. Foi um meio, um mecanismo instrumental. Nós chegamos onde chegamos porque a ordem possibilitou a cultura, e não o contrário.
António F. Afonso